Juros pagos por títulos da petroleira disparam no exterior

Um termômetro da disposição dos investidores em financiar a Petrobras, os juros cobrados pelos títulos (bonds) da estatal no exterior dispararam no mercado secundário, aquele em que são negociados os papéis entre os agentes privados, ou seja após a emissão inicial pela empresa. Em alguns casos, os juros exigidos praticamente triplicaram entre agosto e novembro. Os papéis com vencimento em 2016, por exemplo, eram negociados com taxa de 1% em agosto. Hoje, juros já estavam em 3,8% ao ano. Eles fazem parte de uma emissão de US$ 2,5 bilhões feita em 2011 pela estatal. A alta dos juros é um sinal de que a empresa terá mais dificuldade de captar novos recursos daqui para frente.

— Os juros exigidos pelos investidores subiram substancialmente desde que as denúncias de corrupção e pagamento de propinas passaram a ser divulgadas — diz Guilherme Ferreira, da Jive Investments, que fez um levantamento a pedido do GLOBO com os 18 títulos mais negociados no mercado.
Nos bonds com vencimento em 2019, de uma emissão de US$ 2,7 bilhões feita em 2009, os juros chegaram a 3,5% ao ano em setembro e hoje estavam em 5,4%. Ferreira lembra que a Petrobras é a empresa não financeira mais endividada do mundo. Assim, tem um mercado secundário de títulos muito ativo e, apesar dos problemas, os papéis continuam tendo bastante negociação.

Ferreira explicou que a falta de um balanço auditado, no último trimestre, agravada pela ação na Justiça dos EUA contra a empresa, aumenta o risco de que os detentores desses papéis peçam o vencimento antecipado. Esta possibilidade, diz, é prevista na maioria dos contratos de emissão, quando a empresa não apresenta todos os seus números auditados.

— Se os detentores desses títulos pedirem a antecipação do pagamento da dívida, temos o chamado default técnico. E, então, um efeito dominó, em que os detentores começam a pedir a antecipação do vencimento — afirma Ferreira.

A data para publicar o resultado auditado também é importante porque em 6 de fevereiro de 2015 vence US$ 1,25 bilhão em bonds. Segundo especialistas, se a Petrobras não publicar até lá seu balanço auditado, a companhia terá dificuldade em rolar os papéis ou pagar aos investidores que quiserem resgatar os títulos. Além de não conseguir emitir títulos, a empresa poderia ter dificuldades também para conseguir empréstimos diretamente com bancos. A saída, dizem os especialistas, seria obter um socorro do acionista controlador, a União.

— Sem o balanço auditado, os bancos terão dificuldades em liberar recursos para a Petrobras, pois a empresa tem a sua avaliação de risco afetada, já que sua credibilidade e capacidade de pagamento ficam abalados — disse Gilberto Braga, professor de finanças do Ibmec-Rio.

Se a falta de um balanço auditado já dificultava a captação no mercado internacional, a ação na Justiça norte-americana aberta pelo escritório Wolf Popper, em Nova York, torna a tarefa ainda mais árida. A avaliação é do advogado tributarista e professor da FGV em São Paulo, Fernando Zilveti, para quem o processo aberto hoje é o primeiro de uma série que a Petrobras deve sofrer em breve por atos de corrupção.

— Quanto mais ações judiciais entrarem contra a empresa, mais difícil será fazer captações. Certamente, a classificação de risco da Petrobras deve piorar, com rebaixamento da nota, fechando o mercado para novas captações — diz Zilveti.

O advogado avalia que a defesa da Petrobras será muito difícil perante a Justiça norte-americana. Para ele, mesmo que a petrolífera chegue a um acordo com os acionistas, não vai se livrar de desembolsar alguns milhões de dólares.

— A Petrobras pode recuperar sua imagem, após anunciar a criação de uma diretoria de compliance (que busca melhorar a governança corporativa). Mas, no passado, houve falha de gestão. As ações defensivas que a empresa deveria ter tomado para defender o capital de seus acionistas não foram adotadas. A Justiça americana é muito sensível a estes casos, já que tem um mercado de capitais muito desenvolvido — diz Zilveti.

Um gestor de investimentos que prefere não se identificar disse que a Petrobras pode receber uma multa bilionária nos EUA.

— A ação na Justiça dos EUA é gravíssima e pode significar uma multa bilionária. Quem vai comprar dívida da empresa nesta situação? A Petrobras não vai mais conseguir captar recursos no exterior nos níveis de juros que vinha pagando. E o mercado americano está fechado para a empresa — disse o gestor.

* Colaborou Ana Paula Ribeiro

Fonte: O Globo

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